Semáforo nutricional é opção nos rótulos de alimentos


A postura dos consumidores mudou nos últimos anos quando o assunto é alimentação: demandam mais informações e estão mais questionadores sobre aquilo que consomem, buscam opções mais saudáveis e se preocupam em observar o que diz nos rótulos e embalagens dos produtos que estão levando para casa. para entender a relação do consumidor com os rótulos dos alimentos e suas principais necessidades para que tenha a oportunidade de optar por produtos mais saudáveis, a Associação Brasileira da Indústria da Alimentação (Abia), em parceria com o Ibope Inteligência, realizou uma pesquisa, na qual foram ouvidas 2.002 pessoas.

Entre os modelos apresentados, o semáforo nutricional, com base indicativa por porção, onde os símbolos representando a quantidade de sódio, açúcares totais e gordura saturada passam a ser coloridos, em verde, amarelo e vermelho, as mesmas cores de um sinal de trânsito, sinalizando os níveis de nutrientes em relação à sua recomendação diária, foi apontado por 65% dos entrevistados como o mais claro e didático para entender as informações nutricionais; já 64% acham que o semáforo nutricional cumpre os requisitos para auxiliar escolhas mais nutritivas e saudáveis.

O modelo é defendido pela indústria de alimentos, que ressalta que ele possibilita que o consumidor encontre de forma mais fácil a característica dos alimentos, o teor de cada nutriente, para que tenha o poder de escolha dentro do contexto de uma dieta equilibrada, diversificada e inclusiva. A proposta é bem diferente da apresentada pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), que, a partir dos modelos chileno e equatoriano, desenvolveu um novo padrão, que consiste em triângulos pretos com a borda branca para que a informação se destaque na frente da embalagem.

Há três anos, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) trabalha com um grupo de discussão, com a participação de representantes da área de saúde, da academia, da indústria e de órgãos de defesa do consumidor, para pensar mudanças na forma de apresentação de informações nutricionais, por meio de rotulagem frontal dos produtos, ou seja, que o rótulo com as informações nutricionais passe a ser impressa na parte da frente da embalagem. Vários modelos de rotulagem estão sendo estudados pela agência. Entre eles, o apresentado pela Abia, o idealizado pelo Idec, o adotado pelo Chile e o da Fundação Ezequiel Dias (Funed). (Confira as propostas apresentadas à Anvisa no infográfico abaixo).

— A realização desta pesquisa foi muito importante para obtermos a opinião da população brasileira. Os dados coletados mostram uma clara preferência pelo modelo de rotulagem frontal com semáforo quantitativo proposto pelo setor, uma vez que ele é informativo e educativo, além de ter fácil entendimento para toda a população — afirma Daniella Cunha, diretora de Relações Institucionais da Abia.

Gerente executivo da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Pablo Cesário reforça que o modelo do semáforo demonstrou ser o que mais desperta o interesse das pessoas pela busca de informações nutricionais:

— Isso é fundamental quando pensamos em garantir eficiência a uma política pública como está em discussão. O que adianta os rótulos serem fontes seguras de informação, se elas não forem percebidas pelas pessoas? Hábitos saudáveis são resultados de escolhas equilibradas, não se desenvolvem por imposição.

INFORMAÇÕES DE FÁCIL ENTENDIMENTO

De acordo com o estudo, a população já tem por hábito consultar informações nas embalagens, mas sente a necessidade da adequação e revisão de alguns itens, com informações mais claras. De modo geral, 3/4 da população procura informações nas embalagens para auxiliar na escolha dos produtos. A tabela nutricional é o terceiro item mais consultado, com 21%. Os itens mais observados pelas pessoas é o prazo de validade ou data de fabricação (45%) e preço (24%). Advertências relacionadas à saúde (diet, light, sem colesteral, sem gordura trans, sem lactose, contém glúten etc) são buscadas por 18% dos entrevistados. Há ainda quem se preocupa em verificar marca ou fabricante (13%) e, também, a lista de ingredientes (10%).

Aumentar o tamanho das letras/números (27%) e trazer informações mais claras (21%) são as principais demandas da população para melhorias na tabela nutricional. A apresentação do porcionamento, complementando medidas em gramas e litros, também aparece como uma necessidade dos brasileiros. A maioria dos entrevistados (70%) dá preferência pela referência nutricional com base em quantidades mais concretas e de fácil observação, como unidades ou medidas caseiras para especificar as porções de alimentos ou bebidas, como duas unidades, duas colheres, dois copos etc.

— A indústria acredita que qualquer modelo de rotulagem, sozinho, não é capaz de substituir uma ação ampla de educação alimentar e nutricional, que oriente a população a entender as informações nos rótulos dos alimentos e saber como compor uma alimentação saudável e equilibrada, aliada à prática de atividade física — afirma Alexandre K. Jobim, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Refrigerantes e de Bebidas não Alcoólicas (ABIR).

CRÍTICAS DOS ESPECIALISTAS

O modelo defendido pela indústria de alimentos, no entanto, tem sido criticado por especialistas, que ponderam que ele pode causar confusão, pela presença de informação contraditória: quando um mesmo produto tiver sinal verde para o açúcar e vermelho para gordura, por exemplo, o seu risco à saúde pode ser percebido como menor.

— O modelo de semáforo, com ou sem esquema de cores, confunde mais do que informa e tem um tempo de leitura maior — avalia Paula Johns, diretora executiva da ACT Promoção da Saúde (ONG voltada ao controle do tabagismo e doenças crônicas).

Para o Idec, o padrão proposto pela indústria tem outro agravante: apresentar as mesmas informações da tabela nutricional com uma linguagem numérica, de difícil compreensão.

— Além disso, a sugestão de informação por porção também leva o consumidor ao engano, porque, muitas vezes, o tamanho é calculado de acordo com o interesse da indústria em divulgar mais ou menos quantidade de caloria, sódio e açúcar, e não corresponde ao padrão de consumo — completa Ana Paula Bortoletto, nutricionista do Idec.

Fonte: O GLOBO