Você tem fome de quê?


Pela primeira vez na história da humanidade, o gasto médio das famílias com alimentação fora do ambiente doméstico, em relação ao total gasto com alimentação, ultrapassou os 50% em um país. Foi isto que se passou nos Estados Unidos em 2014, segundo dados do Departamento de Agricultura daquele país. No Brasil, segundo dados da Pesquisa de Orçamento Familiar de 2008/09, este gasto médio foi de 31,1%. No Reino Unido, em 2014, esse percentual foi de 37,04%, segundo dados da LCF (Living Costsand Food Survey), e na Espanha, neste mesmo ano, foi de 34,53% segundo dados da EPF base 2006 (Encuesta de Pressupuestos Familiares).

Novas configurações sociais, como a redução demográfica das famílias, o aumento da mão-de-obra feminina no mercado de trabalho, o envelhecimento da população, o aumento nos índices de obesidade, e outras doenças crônicas advindas da má ou inadequada alimentação, refletem nas escolhas que os consumidores fazem do que, como, quando e onde comer. Assim, as práticas alimentares na atualidade têm incorporado dimensões cada vez mais complexas da vida social dos indivíduos e seus coletivos.

Apesar dos restaurantes abocanharem a maior parte dos gastos com alimentação fora do ambiente doméstico, o fenômeno do “comer fora” se expressa em diferentes e inusitadas situações, seja na ‘marmita’ que se leva ao trabalho, e que vem ganhando contornos mais estéticos e menos pejorativos, seja na casa de amigos e familiares, nas escolas, nas ruas e praças, ou mesmo dentro de casa, quando se pede um delivery– opção que vem crescendo a uma taxa de 10-12% ao ano.

Na verdade, considerando tamanha diversidade de situações, é possível supor que o gasto com alimentação fora de casa seja ainda maior do que os dados oficiais registram, tendo em vista que as definições oficiais, na maioria das vezes, não cobrem todas essas situações.

Por outro lado, mesmo os hábitos alimentares dentro de casa vêm se alterando rapidamente. A crescente preocupação com a saúde, reforçada diariamente pelos programas de televisão e pelos discursos médicos, impacta nas escolhas do que e de como comer. A busca pela praticidade, conveniência e improviso, em torno do que se come, vem sendo uma tendência para grande parte da população – especialmente urbana –, em razão do acelerado ritmo de vida diária e o investimento de tempo em práticas mais prazerosas e menos penosas (como muitas vezes são percebidas as tarefas domésticas).

Além dessas tendências, as pautas políticas têm aparecido cada vez mais à mesa, sob o ponto de vista de um consumo mais ético. Os consumidores de produtos orgânicos, os vegetarianos, as cooperativas de compras coletivas, o boycotting (boicotar algum produto) e o buycotting (incentivar a compra de algum produto) de algumas marcas, a preocupação com o meio ambiente, são alguns destes exemplos.

Com o advento das tecnologias informacionais, a crescente urbanização e a abundância relativa de alimentos baratos, os hábitos alimentares têm mudado de forma dinâmica, envolvidos por processos mais amplos de transformação como a globalização, a comoditização, a estetização e a eticização. Porém, estes processos não se dão de maneira unívoca. Há reações que fazem com que as formas de comer sejam cada vez mais matizadas e multifacetadas.

Os consumidores buscam constantemente por inovações, fato que desperta maior interesse pela questão estética em torno do alimento. A arquitetura das cozinhas, já algumas décadas atrás, vem se transformando em um ambiente integrado às salas de estar, local de convívio e lazer, e não mais percebidas como um local de serventia e isolamento. A moda da vez são as “sacadas gourmet”.

O cozinhar tem despertado interesse pelo prazer e, cada vez menos, é realizado em virtude da obrigação. Esse compromisso, por exemplo, tem sido substituído pelo delivery, ou mesmo pela ‘quentinha’, ou ainda pela comida congelada. As pessoas têm usado a cozinha como um espaço de criação e convívio, sendo que o comer aparece como elemento principal que sustenta esse fenômeno, especialmente sob o ponto de vista da sociabilidade.

A dimensão da estética, mais ligada ao processo de diferenciação social, também é percebida em renomados restaurantes, onde os chefs de cozinha buscam reestabelecer uma conexão com a ‘natureza’ de diversas maneiras, seja cultivando os próprios ingredientes, ‘descobrindo’ comidas exóticas de culturas longínquas ou estabelecendo relações diretas com os agricultores familiares.

Tais iniciativas adentram famosos circuitos gastronômicos e exploram a tradicionalidade, o exotismo e a paisagem, corporificados, principalmente, no saber e no território dos agricultores e povos tradicionais. Tais processos englobam o fenômeno que hoje se chama de gastronomização alimentar, que difere de um país/região para outro, nas suas múltiplas formas de expressão.

Políticas públicas de abastecimento alimentar também surgem associadas a estas dinâmicas. As refeições oferecidas em escolas, por exemplo, são refeições realizadas fora de casa, pelas crianças e funcionários. Políticas de abastecimento alimentar, como o PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar), ao incentivarem a compra de produtos da agricultura familiar, conectam diretamente o fenômeno do ‘comer fora de casa’ às transformações sociais que ocorrem tanto no meio urbano quanto no meio rural.

Essas mudanças no “comer fora” também estão refletindo os hábitos alimentares dentro de casa, já que essas novas experiências culinárias podem ser incorporadas na rotina alimentar diária do lar.

O agroturismo e o turismo gastronômico também contribuem com a expansão da prática do comer fora de casa. Circuitos gastronômicos que aliam paisagem rural aos pratos típicos de um dado território ou cultura, incidem sobre as práticas dos consumidores que ‘desfrutam’ desses momentos.

Ao comer diante destes contextos mais ‘idílicos’ os consumidores alteram parte de seus hábitos alimentares, incorporando novos gostos e novas pautas políticas. De certa forma, tal aspecto também pode vir a incidir sobre as rotinas alimentares, de maneira mais ampla, dentro de suas casas.

Os grupos de consumo, a expansão das ‘marcas territoriais’ e as dietas individualizadas, por exemplo, demonstram que não somente os espaços – se dentro ou fora de casa – influenciam nas práticas alimentares, mas também os menus e os processos de incorporação. Ou seja, o corpo cada vez mais individualizado, estetizado e politizado, assim como os próprios territórios, influenciam na reconfiguração dos hábitos de consumo, não de maneira menos contraditória, mas de forma mais complexa.

É necessário compreender melhor as configurações alimentares- os hábitos, as rotinas e as práticas alimentares -, que se transformam de maneira cada vez mais rápida e matizada na contemporaneidade. O debate deve se ‘debruçar’ sobre esses temas, que vão além da produção, mas que passam também pelos mercados e pelas práticas alimentares dos indivíduos, sob diversas dimensões, especialmente as que correspondem a estética, a política e a saúde.

Compreender essas tendências em torno do consumo, estabelecer ‘conexões’ com os consumidores, multiplicar iniciativas ‘inovadoras’, dialogar com as bandeiras de luta dos consumidores – defesa do bem-estar animal, inclusão social, igualdade de gênero, sustentabilidade ambiental, etc–, atender aspectos de conveniência e praticidade, são elementos que devem ser urgentemente incluídos nos debates sobre políticas alimentares.

Fonte:SUL 21